O Rastilho não era só um cão.
Era presença, carácter, lealdade pura, como a dona dizia – pura inocência.
Um companheiro de todas as horas, com energia explosiva e ternura tranquila.
O seu nome ajustava~se ao que sempre foi, corria como um rastilho aceso, disparado, cheio de vida até cair de cansaço, com o corpo quente e o coração satisfeito.
Fui o seu Master, e ele foi, para todos, o cão da casa.
Seguia a sua dona como sombra fiel. Nunca a deixava sozinha, nem por um instante. Buscava colo e dormia aos seus pés.
Com a mais nova da família, entregava-se aos exageros sem pedir consentimento: subia para o sofá e para a cama com aquele ar de quem sabe que está a infringir regras, mas confiava que o amor sempre lhe perdoaria tudo.
Fugia de casa quando podia para brincar com as crianças no parque.
Ressonava alto, como quem quer fazer-se notar até a dormir e tinha uma característica rara: nunca desviava o olhar.
Olhava-nos — olhava-me — de frente, com ternura, muita verdade e alma. Dava vontade de saber o que ia no seu pensamento.
Foi isso que me marcou no seu último dia, pela primeira vez, o Rastilho desviou os seus olhos dos meus.
Comentei até com a sua dona, com estranheza e dor, quando o vimos pela última vez, no dia da sua partida.
Talvez fosse a sua forma de nos dizer adeus.
Estava esgotado, cansado — mas ainda assim, sempre atento ao que se passava ao seu redor.
Hoje, a casa está diferente.
O silêncio pesa mais.
Mas fica nele o rasto de tudo o que o Rastilho foi:
Companheiro. Cúmplice. Rebelde. Amoroso. Guardião de quem mais amava.
Descansa, meu cão e amigo.
O teu olhar ficou.
E a tua ausência nunca apagará o lugar que ocupas em nós.