Tigre

Tigre,

a tristeza da tua partida é muita, mesmo muita, mas que este memorial sirva também para agradecer a tua presença nas nossas vidas.
Lembro-me perfeitamente do dia que chegaste até nós, aquele primeiro dia de festa a 10 de Setembro de 2010. Um gato já crescidote, retirado ao destino de ser um gato de campo – mas como se viria a provar, nunca perdendo completamente essa natureza. Chegaste assustado, dentro de um saco de rede vermelho, aquilo que os teus captores conseguiram improvisar. Demoraste a dar-nos confiança, mas lembro-me bem da insistência em despertar-te a curiosidade começar a dar frutos, e de finalmente aceitares sair debaixo da mesa da sala e aceitares as brincadeiras. Éramos um lar de céticos – nunca tínhamos tido um gato em casa, e dois de nós, mesmo que curiosos, tínhamos as nossas desconfianças. Mas rapidamente nos conquistaste, da forma mais estrambólica possível: passavas do mimo à completa irreverência em menos de nada, como um bom gato laranja. Tudo perdoávamos (na verdade, gostavámos da rebeldia), e tinhas nesta altura a tarefa de distribuir atenções e amor por 3 donos – tarefa executada com soberba distinção.
Foste um menino mimado, brincalhão, guloso, e espero que feliz. Deste-nos carinho, proximidade, e viste mudanças boas e más. Eras a atração em casa, uma que nunca passava de moda, nem que fosse por força de estares a aprontar algum estrago que nos obrigasse a lembrar. Os teus serões de jogos, de lutas, de pequenos percursos a roçar e de colo estendiam-se, e assim passaram estações. Os teus donos séniores partiram, um de cada vez, e sentiste a falta deles; até ao fim, gostaram de ti. A família recebeu outra dona, e como não podia deixar de ser incorporaste-te na sua vida, ganhando outra admiradora. Não era possível não causares uma impressão forte, aliás.
Os anos foram pesando, mas o teu espírito jovial continuou, e só a doença o conseguiu vencer. Passámos por um susto, mas ainda tivemos o privilégio de te ter connosco algum tempo. Até que infelizmente, a degradação acelerou, e a porcaria da doença tirou-te forças e energia. Nenhum gato merecia passar por ela, mas muito menos tu, o melhor gato do mundo. Dói muito que ela te tenha levado, e te tenha impedido de continuares a receber-nos com aquela alegria contagiante nos olhos. Levas contigo um pedaço grande de nós, mas talvez seja justo que assim seja: afinal, deixaste-nos muito mais.
Os donos gostam muito de ti, Tigre, e sentem a tua falta. A casa e os hábitos estão mais frios e tristes. Vamos ter saudades da tua voz, do teu pêlo, da tua distinta presença, e o teu lugar nunca poderá ser verdadeiramente preenchido.
Que estas insuficientes palavras façam um pouco de jus ao muito que significaste.